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A mentira que se aposenta todo ano mas nunca sai de cena

Willyma de Jesus | 05/01/2026 | 07:38 | 3 min de leitura | 323 acessos

Todo janeiro a Previdência vira assunto e todo janeiro alguém reapresenta a mesma peça, mudam os atores das redes sociais, o roteiro permanece. Agora dizem que o governo Lula aumentou o tempo de aposentadoria dos professores em 2026. A frase é curta, impactante e falsa. Fake news das mais preguiçosas, mas eficazes, porque aposta no cansaço e na memória curta.

O que está em vigor não nasceu em 2026, nem em 2023, nem em um despacho recente do Planalto. As regras que avançam meio ano por vez foram escritas em 2019, carimbadas pela Emenda Constitucional 103, aprovada no governo Bolsonaro. O calendário foi desenhado para andar sozinho, como aqueles relógios antigos que continuam marcando as horas mesmo depois que o dono vai embora.

A cada virada de ano a idade mínima sobe seis meses, a pontuação aumenta, tudo conforme o texto aprovado há sete anos. Não há decreto novo, não há canetada escondida, não há surpresa administrativa. Há apenas o cumprimento automático de uma reforma que foi vendida como necessária, inevitável e definitiva. Lula herdou a regra, goste-se ou não dele, e governa sob ela.

O truque da desinformação é fingir que o relógio começou a contar agora. Ignora-se o passado, apaga-se o autor da reforma e aponta-se o dedo para quem ocupa o cargo no momento. É um expediente velho na política, mas que nas redes ganha velocidade de algoritmo e verniz de indignação moral. Quem espalha o boato raramente menciona que antes da reforma professoras podiam se aposentar aos 50 anos. Isso acabou em 2019, não em 2026.

O prejuízo dessa mentira não é apenas político, é humano. Professores planejam a vida, contam anos, fazem contas. Quando a informação chega distorcida, o planejamento vira ansiedade. A regra é dura, sim, mas é conhecida. Existem transições, pedágios, possibilidades reconhecidas pelo STF, detalhes que exigem orientação séria, não vídeo sensacionalista com música dramática ao fundo.

O debate honesto sobre Previdência é legítimo. Pode-se criticar a reforma, pode-se defender mudanças, pode-se cobrar outro modelo. O que não dá é transformar calendário em conspiração e cronograma em traição. A mentira até viraliza, mas a verdade continua lá, esperando que alguém tenha paciência para lê-la.

No fim, a fake news se repete todo ano porque dá voto, dá curtida e dá engajamento. Já a verdade, como a aposentadoria justa, exige tempo, memória e responsabilidade. Três coisas que andam em falta, dentro e fora das redes.

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