A saída de Carlos Amastha da Secretaria de Zeladoria Urbana não é somente um ato burocrático que passa despercebido no Diário Oficial. É um fato que revela muito sobre os bastidores da política em Palmas e sobre como as relações de confiança no poder podem se fragilizar com a mesma velocidade com que se constroem.
Quando decidiu apoiar Eduardo Siqueira Campos em 2024, Amastha fez um movimento que mudou o rumo daquela eleição. À época, ele tinha apenas 13% das intenções de voto, segundo pesquisa RealTime Big Data divulgada em 25 de junho de 2024. Não tinha força para vencer, mas tinha capital político suficiente para desequilibrar o jogo em uma disputa que era triangular. O gesto de ceder espaço, declarar apoio a Eduardo e entregar seu grupo a um projeto que julgava mais viável foi determinante para que a velha União do Tocantins chegasse ao segundo turno. Para lembrar os números, Janad Valcari venceu o primeiro turno com 62.126 votos, Eduardo ficou com 51.344 e Júnior Geo com 44.326. Se o PSB, que fez 7.012 votos para vereador, tivesse caminhado com Geo, talvez o desfecho tivesse sido outro. Essa matemática é incômoda, mas precisa ser feita.
A carta enviada por Amastha ao prefeito tem tom de desabafo e é quase uma crônica política. Ele relembra a parceria construída na eleição, fala do compromisso assumido com a cidade e lamenta os boatos e insinuações que, segundo ele, criaram um ambiente sufocante dentro da gestão. Há um trecho que chama mais atenção ainda, quando Amastha diz que sabe o quanto dói sentir-se traído e que não faria isso com ninguém. É uma confissão que carrega emoção e que, ao mesmo tempo, joga luz sobre o que se passou nos bastidores. Ele vai além e cita Napoleão Bonaparte para alertar sobre o perigo de líderes se cercarem apenas de quem diz o que eles querem ouvir.
No fundo, o que esse episódio mostra é que Eduardo Siqueira Campos enfrenta um desafio que vai além de cuidar das ruas e praças da cidade. Mesmo com uma base sólida e maioria na Câmara, ele precisa manter unida a engenharia política que o levou de volta ao Paço. Apoio do parlamento municipal garante estabilidade, mas não substitui a necessidade de diálogo amplo, de equilíbrio e de lideranças capazes de separar intriga de crítica construtiva. Palmas não precisa de trincheiras internas, precisa de pontes.
Resta saber se Eduardo terá fôlego para manter a coesão política sem cair nos velhos erros que já custaram caro a outros líderes. Uma coisa, porém, é certa, fora da gestão, Amastha volta a ocupar um espaço onde sabe brilhar. Mesmo sendo vereador de primeiro mandato e tendo atuado até aqui na base, ele conhece como poucos a arte de cobrar, de provocar e de transformar o denuncismo em palco. Para um governo que ainda busca consolidar sua base, lidar com um Amastha livre, leve e barulhento pode ser bem mais difícil do que tê-lo sentado à mesa.