Os números da última pesquisa Datafolha não surpreendem. Com 36% de reprovação e 29% de aprovação, o Supremo Tribunal Federal aparece como alvo preferencial da frustração de uma parte do eleitorado brasileiro. Mas vamos combinar: reprovação vinda de quem?
Entre os simpatizantes do PL, a rejeição aos ministros chega a absurdos 81%. A aprovação, míseros 2%. Já entre eleitores petistas, o jogo vira de forma escancarada: 56% aprovam o trabalho da Corte, enquanto só 9% a reprovam. A explicação é simples e incômoda para alguns: o STF vem desempenhando um papel crucial na preservação da democracia, especialmente diante dos ataques golpistas que marcaram os últimos anos. E isso, para quem sonha com ruptura institucional, é imperdoável.
Quando a Justiça decide com base na Constituição, incomoda quem acredita que força política pode se sobrepor ao Estado de Direito. A decisão do ministro Alexandre de Moraes, que decretou a prisão domiciliar de Jair Bolsonaro, é emblemática. Não se trata de vingança, nem de perseguição. Trata-se de consequência. E, convenhamos, para quem se acostumou a desafiar as instituições e posar de intocável, qualquer prestação de contas parece um atentado.
A crítica ao STF não é nova, mas vem se intensificando na mesma proporção em que a Corte passou a ser o último freio institucional a projetos autoritários. Enquanto o Congresso se curvava aos interesses do centrão e o Executivo flertava com o caos, coube ao Supremo a ingrata tarefa de manter de pé as estruturas mínimas da legalidade. Pagou, e ainda paga, um preço alto por isso.
É claro que o Judiciário precisa ser cobrado, avaliado e, quando necessário, criticado. Mas é preciso separar crítica legítima de campanha orquestrada. E o que se vê hoje é uma tentativa clara de desmoralizar a instituição, não por seus erros, mas por sua resistência.
Os dados da pesquisa, lidos com atenção, mostram que a avaliação do STF é dividida por trincheiras ideológicas. Isso é preocupante, mas também revelador. Mostra que, para parte da população, o tribunal deixou de ser neutro não porque tenha se politizado, mas porque decidiu cumprir sua função diante de um cenário em que a omissão seria fatal.
Quem hoje grita contra a Corte não está, necessariamente, defendendo justiça; está defendendo um projeto de poder que não aceita ser confrontado. E nesse embate, o STF virou alvo não por ser injusto, mas por ser incômodo. Porque no Brasil de hoje, aplicar a lei virou ato de coragem.
A democracia brasileira ainda respira porque algumas instituições resistiram. O Supremo é uma delas. Que continue sendo. Mesmo que isso custe sua popularidade entre os que gostariam de vê-lo de joelhos.