Entre 2023 e 2025, o Tocantins recebeu um total de R$ 1.364.226.419,23 em emendas parlamentares. Apesar do volume expressivo de recursos, a distribuição entre os municípios revela um padrão desigual que favorece centros urbanos já desenvolvidos, enquanto cidades com os piores indicadores sociais seguem à margem das prioridades.
Aqui vamos mostrar como a destinação de recursos não acompanha os níveis de desenvolvimento humano, aprofundando desigualdades históricas e deixando claro que a lógica das emendas segue critérios políticos, não sociais.
Montante total de emendas no período
A divisão por ano demonstra uma tendência de queda na liberação dos recursos ao longo do tempo:
- 2023: R$ 618.727.421,07
- 2024: R$ 514.777.507,53
- 2025: R$ 230.721.490,63
Mesmo assim, o total acumulado no triênio supera R$ 1,3 bilhão; dinheiro suficiente para transformar realidades em municípios carentes, se bem distribuído.
As cidades que mais receberam emendas
Os cinco municípios com maior volume de emendas são também os que possuem melhor infraestrutura e IDH elevado:
| Município | Valor Recebido (R$) |
|---|---|
| Araguaína | 143.366.027,16 |
| Porto Nacional | 70.386.979,13 |
| Gurupi | 46.206.871,00 |
| Paraíso do Tocantins | 39.599.261,00 |
| Araguatins | 20.699.205,00 |
Quatro dos cinco municípios com maior volume de emendas estão entre os dez melhores IDHs do Tocantins, o que reforça a crítica de que os mais desenvolvidos continuam sendo os mais contemplados. Araguatins, embora fora do top 10 em IDH, ainda está à frente de dezenas de municípios com indicadores muito mais baixos e que receberam bem menos.
Os municípios mais pobres ignorados pelas emendas
Agora, observe os municípios com os piores índices de desenvolvimento humano e quanto receberam em emendas no mesmo período:
| Município | IDH | Valor Recebido (R$) |
|---|---|---|
| Recursolândia | 0,500 | 6.496.343,89 |
| Campos Lindos | 0,544 | 4.146.000,00 |
| São Félix do Tocantins | 0,574 | 1.237.571,00 |
| Lizarda | 0,570 | 2.728.594,00 |
| Centenário | 0,569 | 1.799.848,00 |
Apesar de estarem entre os últimos colocados no ranking de IDH do Tocantins, esses municípios receberam valores relativamente baixos se comparados aos grandes centros. Recursolândia é uma exceção em termos de valor recebido, mas sua posição como o pior IDH do estado apenas evidencia o quanto a desigualdade estrutural persiste mesmo quando há investimento. Já cidades como São Félix, Lizarda e Centenário seguem com baixa prioridade orçamentária, mesmo estando entre as mais vulneráveis.
A distorção no uso das emendas
A comparação é clara. Palmas, com IDH de 0,788, recebeu mais de R$ 14 milhões. Já São Félix do Tocantins, com IDH de 0,574, recebeu R$ 1,2 milhão, sendo quase 12 vezes menos.
Isso mostra que a distribuição não está sendo feita com base em critérios técnicos como carência social, ausência de infraestrutura ou desigualdade. O que pesa, ainda, são os laços políticos e a visibilidade eleitoral.
Quando o dinheiro serve a interesses, não a pessoas
O uso de emendas parlamentares é uma das ferramentas mais poderosas que deputados e senadores possuem para atuar diretamente nos municípios. No entanto, quando a distribuição é orientada por interesse político e não por necessidade social, ela aprofunda o fosso entre os que têm muito e os que não têm quase nada.
Municípios como Recursolândia, Centenário e São Félix do Tocantins continuam com os piores indicadores de saúde, educação, renda e saneamento, mesmo com bilhões circulando no estado. Isso não é falta de dinheiro é falta de prioridade.
Se os recursos fossem distribuídos com base em critérios como IDH, mortalidade infantil, taxa de analfabetismo ou acesso à saúde, o Tocantins teria a chance de se desenvolver de forma mais equilibrada.
Distribuir R$ 1,3 bilhão com justiça social não é utopia, é planejamento. É escolher construir uma sociedade mais igualitária em vez de apenas manter a engrenagem política funcionando para os mesmos de sempre.
O dinheiro das emendas não está chegando a quem mais precisa. Enquanto cidades já estruturadas recebem cifras milionárias, outras seguem invisíveis. A desigualdade no Tocantins não é apenas geográfica ou histórica; ela é alimentada, todos os anos, por decisões políticas que ignoram os dados e as urgências.
É hora de cobrar dos parlamentares não apenas quanto trouxeram para o estado, mas para onde esse dinheiro foi. Afinal, desenvolvimento justo se faz com critério, não com conchavo.